Veja os riscos do excesso de telas para crianças e adolescentes



A cena é comum: um bebê hipnotizado pela tela do celular durante o almoço em família. Uma criança de cinco anos com perfil em rede social. Um adolescente que troca o sono por horas de rolagem infinita nas redes sociais. O que pode parecer inofensivo ou até “moderno” esconde riscos profundos para o desenvolvimento infantil e a vida em sociedade.

“Estamos naturalizando a digitalização da infância sem considerar os impactos subjetivos e neurofisiológicos dessa escolha. O brincar livre, o mundo concreto e as relações presenciais estão sendo substituídos por estímulos digitais que, na maioria das vezes, não são positivos e nem equivalem aos estímulos proporcionados pela atenção e cuidado da família e da comunidade”, alerta a psicóloga Laís Mutuberria, especialista em neurociência do comportamento e saúde mental.

Prejuízos das telas para o desenvolvimento

A exposição precoce às telas, especialmente na primeira infância, pode comprometer o desenvolvimento da visão e aumentar a incidência de uso de óculos em idades cada vez menores. Mas os prejuízos vão além. “A sobrecarga de estímulos visuais digitais prejudica o desenvolvimento de experiências motoras, táteis e sensoriais, essenciais para a formação de circuitos neurais integrados, responsáveis inclusive pela subjetividade e desenvolvimento emocional”, explica Laís Mutuberria.

A especialista ressalta que, durante a infância, o uso excessivo de dispositivos digitais reduz o brincar espontâneo e as interações face a face, elementos-chave para a aquisição de habilidades socioemocionais como empatia, linguagem emocional e autorregulação.

A busca por curtidas e validação pode afetar a autoestima e favorecer o desenvolvimento de problemas de saúde mental (Imagem: ideadesign | Shutterstock)

A lógica da adultização e seus riscos

A exposição constante de crianças nas redes sociais, muitas vezes reforçada por práticas de “sharenting“, compartilhamento excessivo da vida dos filhos por pais e responsáveis, também traz consequências perigosas. “Quando impomos a lógica da performance, da estética e da hipersexualização às crianças, criamos um ambiente propício a distorções de autoimagem e sofrimento psíquico”, afirma a psicóloga.

Na adolescência, o problema se agrava. A busca por curtidas e validação virtual pode gerar dependência, afetar a identidade, a autoestima e aumentar a vulnerabilidade a transtornos como ansiedade e depressão. Em casos extremos, a exposição da imagem infantil pode culminar em situações de abuso e traumas complexos.

Vínculos frágeis e dopamina em excesso

Do ponto de vista psicossocial, Laís Mutuberria destaca outro fenômeno preocupante: a perda da elaboração simbólica e a fragilidade dos vínculos. “A hiperconectividade favorece relações superficiais, baseadas na lógica do imediatismo e da recompensa fácil. Crianças e adolescentes estão perdendo a capacidade de sustentar atenção, planejar, memorizar e refletir criticamente”, alerta.

Segundo a psicóloga, o uso contínuo de redes sociais e jogos digitais ativa circuitos dopaminérgicos do cérebro — os mesmos envolvidos em quadros de dependência química. O resultado é um ciclo que pode culminar em perda de controle, apatia, irritabilidade, queda de rendimento escolar e distúrbios do sono.

Adultos também precisam repensar seus hábitos

O avanço tecnológico trouxe benefícios incontestáveis, mas o desafio está no uso consciente, e isso vale também para os adultos. “O perigo é que essas transformações ocorrem em pequenas doses. Um celular entregue para ‘acalmar’ a criança pode parecer um gesto inofensivo, mas, ao se repetir, transforma hábitos e modos de viver”, diz Laís Mutuberria.

Ela propõe uma reflexão: “você já pensou no que compartilha sobre seus filhos nas redes? Seu uso de telas está alinhado com os valores que deseja ensinar? A infância dos seus filhos está sendo protegida ou exposta?”.

Reconectar é urgente

Para a especialista, é fundamental resgatar valores simples: tempo de qualidade em família, convivência autêntica, afeto e respeito ao tempo de cada fase da vida. “Infância não é lugar de produtividade nem de adultização. É um tempo que precisa ser vivido com liberdade, proteção e presença”, conclui.

Por Annete Morhy





Fonte: Portal EdiCase

Redação EdiCase

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