Racismo contra brasileiros na Argentina revolta polo aquático: ‘Árbitro disse para acostumar’


O time de polo aquático do Sesi-SP estava praticamente garantido na final da Superliga Sul-Americana, no último fim de semana. A equipe vencia o Gimnasia y Esgrima de Buenos Aires (Geba Waterpolo) por seis gols de vantagem e teve em um pênalti a chance de ampliar o placar. O lance, porém, foi seguido por uma ofensa racista por parte de um jogador argentino. O desfecho da situação foi o time paulista e o outro finalista, a Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA), desistirem do campeonato.

O desenrolar do caso, porém, não foi tão simples. Após a injúria, atletas do Sesi-SP questionaram o adversário. Um jogador que estava no banco de reservas foi até o árbitro explicar que se tratava de um caso de racismo. Ele teve apoio do técnico do Sesi.

“A arbitragem disse que tínhamos de estar acostumados. Que ‘aqui é normal'”, contou ao Estadão o gerente de Esporte e Lazer do Sesi-SP, André Avallone. Ele acompanhava a partida da arquibancada, mas já imaginou do que se tratava a situação quando viu o começo da confusão.

O jogo, que tinha cerca de um minuto para ser finalizado, seguiu e foi encerrado, com vitória do Sesi por 17 a 12. Ao fim, não foi cumprido o protocolo em que os jogadores se cumprimentam. A decisão partiu da comissão do Sesi, para evitar conflitos.

O atleta responsável pela ofensa, junto do treinador do Geba, se aproximou dos brasileiros para pedir desculpas. Avallone conta que foi explicado a eles que não era o momento apropriado para isso. A delegação do Sesi cobrou a organização sobre o caso. “Eu disse que precisávamos ser duro com isso. Foi um crime”, relata Avallone.

Quando as súmulas das partidas do dia foram publicadas, não houve menção sobre a situação. “Nossa grande decepção foi que não relataram nada”, lamentou o gerente.

A organização informou que o Sesi deveria, então, formalizar uma denúncia, o que foi feito prontamente. A final estava prevista para 13h de domingo. Às 11h, sem retorno, o Sesi comunicou que não jogaria a decisão.

Meia hora depois, o atleta responsável pela injúria foi suspenso. Ele estava na piscina, em aquecimento para a disputa do terceiro lugar, e foi retirado. O Sesi não recuou da decisão anterior. A ABDA acompanhou a equipe.

O time do Fluminense acabou declarado campeão. Na semifinal, a equipe carioca perdeu por 16 a 14 para a ABDA, e ganhou do Gimnasia y Esgrima (ARG) por 14 a 12 na disputa pelo terceiro lugar, herdando o título não disputado. Os atletas cariocas protestaram com o punho em riste no pódio.

SESI FAZ COBRANÇA JUDICIAL E COBRA POR “LETRAMENTO RACIAL” DE ORGANIZAÇÕES

Em solo brasileiro, foi registrado um boletim de ocorrência. O departamento jurídico do Sesi conduz o caso. “Estamos trabalhando nisso para tomar providências, não só criminal, mas principalmente esportiva”, diz Avallone.

“O que a gente espera é que as organizações estejam preparadas para esses casos. O letramento não pode ser feito somente com os atletas. As confederações também precisam saber em que mundo estamos hoje”, opina.

O Sesi não planeja boicotar outras competições sul-americanas. O entendimento é de que isso prejudicaria os próprios atletas. “Por culpa de uma organização e um jovem, não posso prejudicar a vida dos 15 trabalhadores do polo aquático hoje”.

Neste fim de semana, o time principal disputa uma etapa da Liga Nacional. Já nos primeiros sábado e domingo de setembro, há a disputa do Campeonato Brasileiro Sub-20, em que o atleta que sofreu a ofensa na Argentina vai atuar.

“É um garoto que começou com a gente. Nosso time é 100% formado no Sesi. Todos passaram por letramento, curso antirracismo do COB (Comitê Olímpico do Brasil). Atuaram da forma correta como nós havíamos explicado”, conta Avallone, que argumenta: “Não podemos esperar que o outro faça. Você viu, tem de ir la, denunciar, apontar, em todos os aspectos de diversidade, misoginia. Os meninos tomaram a atitude correta”.

Em nota, a Confederação Sul-Americana de Desportos Aquáticos (Consada) disse que “repudia qualquer forma de discriminação, seja ela racial, étnica, de gênero ou qualquer outra natureza, especialmente no âmbito esportivo”.

O clube argentino também se manifestou. “Condenamos veementemente todas as formas de comportamento discriminatório, seja por raça, gênero, orientação sexual, religião ou qualquer outra condição”, disse um trecho de nota publicada pelo Geba Waterpolo.



Por: Estadão Conteúdo

Estadão

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