Oficial da PM agenciava esquema de criptoativos e tinha lista de propina


Um dos principais operadores do esquema de evasão de divisas e lavagem de dinheiro no mercado do câmbio comandado pelo empresário chinês Tao Li seria o capitão da Polícia Militar de São Paulo Diogo Costa Cangerana, conforme investigações da Polícia Federal (PF). Ele teria atuado na organização criminosa entre 2021 e 2024, quando trabalhou como segurança dos governadores Tarcísio de Freitas e Rodrigo Garcia. Cangerana arrumava clientes interessados em blindar o patrimônio e lavar dinheiro com criptoativos. Estaria ainda envolvido na cooptação de gerentes de bancos e no comércio ilegal de ouro para Dubai, diz a PF. Com ele foi achada uma “lista de propinas”.

O capitão teria atuado em três das fases do esquema criminoso. “Além de exercer importante papel nas fases 1 e 2, Diogo parece ter participação na fase 4, fornecendo endereço na blockchain de uso pessoal e realizando transações com USDT (uma criptomoeda)”, descreve a PF. O Estadão procurou o capitão no local atual de trabalho, a Diretoria de Logística da PM. Deixou recado, mas não houve resposta. À Justiça, ele disse ser inocente.

Segundo a assessoria de Tarcísio, a segurança do governador é atribuição da Casa Militar. Cangerana ingressou na unidade em 2012 e, em setembro de 2024, foi transferido pela atual gestão para o 13.º BPM. Nesse período, não exerceu funções de assessoria ou ajudância de ordens às autoridades, limitando-se a atividades de rotina da PM. O Estadão procurou também o ex-governador Garcia, mas ele não respondeu. O PM deixou de atuar no Bandeirantes dois meses antes da operação da PF.

Na primeira fase do esquema, segundo a PF, os doleiros criam ou adquirem empresas de fachada para receber recursos em reais, mediante depósitos ou transferências dos clientes interessados na evasão de divisas. Na fase seguinte, esses valores seriam direcionados a pessoas jurídicas ou físicas que fazem os contratos de câmbio sob a modalidade de aquisição de mercadoria no exterior por meio de criptoativos, como o USDT. Com o USDT na mão, ocorre a quarta fase. Nela, diz a PF, os doleiros dão contrapartidas aos clientes, no Brasil ou no exterior. Os USDT são transferidos para os endereços indicados pelos clientes sem que haja controle estatal ou tributação.

A PF interceptou diálogos entre Cangerana e Tao Li. O primeiro foi em 30 de março de 2021, quando agendam um encontro às 9h30. No mesmo dia, por volta das 15h, Li envia uma planilha ao capitão, que traz custo de criação e manutenção de empresas usadas no esquema. Havia nela uma lista de propinas. “Chama atenção a contabilização dos custos mensais da manutenção dos CNPJs em que Tao Li prevê pagamentos para ‘laranjas’, ‘gerente de banco’ e ‘polícia'”, afirmou o delegado Guilherme Alves Siqueira, responsável pelas investigações.

Para a “polícia”, estavam reservados por mês “2 mil” – não se sabe se são mil ou milhões -, 3 mil para gerente de banco e 2 mil para laranja. “Fica evidente que os envolvidos estruturam o negócio sob bases ilícitas, mantendo contas bancárias de empresas inexistentes, em nome de interpostas pessoas, cujas movimentações milionárias dependem do pagamento de propina a gerentes de bancos e policiais”, diz a PF.

Li reclamou ainda com Cangerana sobre a dificuldade de criar empresas de prateleira, pois era preciso pagar as contas das companhias por, pelo menos, seis meses, pois elas não podiam “morrer muito rápido”. “Nós temos um custo para arrumar empresa, arrumar escritório.”

SUBORNO DE GERENTES. Cangerana ainda intermediou contatos de Li com bancos, segundo a PF, para obter facilidades em contratos de câmbio que seriam fechados por meio da Swapfy, empresa de fachada do grupo. Li fez então pagamento para o capitão, que disse ao empresário que podia ajudá-lo a abrir conta num grande banco e que o gerente cobrava suborno para a manutenção da conta com “grande limite de movimentação”. “Cobra 5 mil para abrir e 5 mil/mês… Consegue movimentar 2mm/dia… ou mais”, afirmou o capitão.

Conforme documentos que a PF apreendeu, ambos deram andamento à abertura de contas em nome de laranjas. Li pediu a Cangerana que abrisse duas contas num banco e afirmou que ia mandar os documentos, como o comprovante de residência de um “sócio”. “Ele é só laranja (…) mesmo, não tem nada”, disse o empresário em mensagem ao oficial. Pouco depois, os diálogos entre os dois registram a abertura de mais duas contas no mesmo banco e duas em outro banco do País. Todas com limite diário de R$ 2 milhões.

Além de clientes, o capitão também forneceria segurança ao empresário a fim de cuidar do serviço de coleta de dinheiro com os comerciantes clientes de Li. Só pelo serviço de abrir essas contas, o PM recebeu R$ 18 mil. O pagamento total seria de R$ 120 mil, que ele receberia por meio da Canbru Intermediações. O capitão teria trabalhado ainda com contas correntes em outros três bancos do varejo para empresas de fachada. Em outra leva de contas, ele diz ter pagado mais R$ 10 mil ao gerente de um dos bancos.

Li cobrava o capitão para que cada conta tivesse limite de transação diária de R$ 2 milhões, pois, se fosse menor, não haveria como fazer as remessas. Além de contas bancárias, o capitão também providenciava CNPJs para o empresário. Foi assim quando apresentou três empresas a Li. Uma, de 2017, custava R$ 40 mil e outra, aberta em 2007, saía por R$ 45 mil, já contando com alterações de nomes. Para tanto, ele seria ajudado por um operador de USDT. Cangerana pagava parte dos serviços do esquema com esse tipo de criptomoeda. Uma das vezes, ele consultou o empresário para comprar R$ 85 mil em USDT com dinheiro vivo.

Os dois trocam mensagens ainda mostrando que estavam em “projeto” com o 2GoBank, fintech montada pelo policial civil Cyllas Elia com a ajuda de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). Trata-se de uma relação que começou em 2021. O 2GoBank foi uma das instituições de pagamento delatadas pelo empresário Antonio Vinícius Gritzbach, assassinado em 2024 no aeroporto de Guarulhos.

OURO PARA DUBAI. Por fim, os federais encontraram indícios de remessa ilegal de ouro em mensagens de um grupo de WhatsApp mantido pelos investigados. A PF identificou o possível fornecedor, que mantinha contatos em Brasília e em Dubai. Li escreveu: “Só pra finalizar porque ele tem o ouro lá com os papéis até 12 toneladas e já aceitou a forma de pagamento em cash, crypto ou bank”. A primeira remessa de ouro seria colocada numa Ferrari enviada a Dubai.



Por: Estadão Conteúdo

Estadão

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