O cronista Luis Fernando Verissimo morreu neste sábado, 30, em Porto Alegre. Aos 88 anos, ele estava internado em um hospital da capital gaúcha desde a segunda semana de agosto e faleceu em decorrência de complicações de uma pneumonia.
Nos últimos anos, o escritor já havia enfrentado outros problemas de saúde. Em janeiro de 2021 sofreu um AVC que afetou uma parte cognitiva de seu cérebro, dificultando a ordenação de seus pensamentos, ainda que compreendesse o que se passava ao seu redor.
O corpo do escritor foi velado na tarde do sábado no Salão Nobre Júlio de Castilhos, da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. O governador Eduardo Leite decretou três dias de luto oficial no Estado.
Em 1988, Verissimo começou seus trabalhos como colaborador do Estadão. Um ano depois, publicou a primeira crônica semanal no Caderno 2, onde escreveu até janeiro de 2021, quando sofreu o AVC.
Cronista, cartunista, ficcionista, saxofonista, gourmet e torcedor fanático do Internacional, Verissimo sempre foi uma das raras unanimidades positivas do País. Foi autor de mais de 70 livros, que já venderam milhões de exemplares (entre eles, os best sellers O Analista de Bagé e A Comédia da Vida Privada) e de personagens emblemáticos (a Velhinha de Taubaté, que criticava a ditadura, o detetive Ed Mort, as Cobras).
Filho do escritor Erico Verissimo, ele só começou a escrever aos 30 anos (nasceu em 1936), depois de ter passado por várias escolas de arte e desenho, em cursos que nunca terminou; de ter tentado o comércio “só para reforçar o mau jeito da família”; e de ter passado por uma rápida carreira jornalística, de revisor e colunista de jazz a cronista principal do jornal Zero Hora.
Em 1973, lançou, pela Editora José Olympio, seu primeiro livro, O Popular, com o subtítulo “Crônicas, ou coisa parecida”, coletânea de textos editados na imprensa, formato que marcaria boa parte de suas publicações. O primeiro grande sucesso, no entanto, aconteceu com o lançamento de seu quinto livro de crônicas, Ed Mort e Outras Histórias. Sátira aos romances policiais, o detetive Ed Mort inspiraria ainda uma tira de quadrinhos desenhados por Miguel Paiva e um filme com Paulo Betti no papel título.
Verissimo se tornaria fenômeno de vendas com O Analista de Bagé, lançado em 1981, quando a primeira edição se esgotou em apenas dois dias. O personagem foi originalmente criado para um programa de humor na TV, capitaneado por Jô Soares. Com o projeto engavetado, Verissimo levou-o ao livro, tornando-se uma figura peculiar: psicanalista de formação freudiana ortodoxa, o analista não esconde, porém, seu sotaque e a predileção por costumes típicos da fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai e a Argentina. A graça surgia justamente na contradição entre a sofisticação da psicanálise e a “grossura” caricatural do gaúcho da fronteira. O personagem inspirou dois livros de contos, um de quadrinhos (com desenhos de Edgar Vasques) e uma antologia.
Em pouco tempo, ele cruzou fronteiras, tornou-se colaborador de programas de televisão – caso das histórias da Comédia da Vida Privada, série de 21 programas (1995-1997), com roteiros de Jorge Furtado e direção de Guel Arraes.
VER E SER
A timidez era uma característica sempre lembrada: sim, Verissimo sempre buscou ser engraçado na escrita e não na fala. Na verdade, nunca se julgou um humorista. “Acho que há uma diferença entre ser humorista e fazer humor”, disse. “O humorista é o cara que tem uma visão humorística das coisas. O humor é sua maneira de ver e de ser.”
Uma filosofia que se revelou útil durante a dura fase de exceção. Verissimo contou que, durante a ditadura, enviava uma crônica para o jornal deixando sempre uma na gaveta, de reserva. “E não foram poucas as vezes em que ela saiu de lá, comentou. “Os censores pareciam achar o cartum algo infantil; então, era mais fácil fazer passar um cartum político que um texto político.”
Autodeclarado um gaúcho desnaturado, por não andar a cavalo, não tomar chimarrão e ter nascido e se criado na cidade, Verissimo sentiu o gosto da felicidade plena no dia 4 de abril de 2008, quando sua filha Fernanda lhe deu a primeira neta, Lucinda, nascida em uma data especial: dia do aniversário do Inter.
Em 2020, Elias Thomé Saliba, professor da Universidade de São Paulo especializado em humor e autor de Raízes do Riso, descreveu o escritor como o cronista mais popular do Brasil, aquele que “diz o que o leitor quer falar, mas não consegue”. “Verissimo ultrapassa o transitório não apenas porque suas crônicas se transformam em livros, mas porque estabeleceu desde o início um pacto humorístico com o leitor.”
“Mais do que qualquer outro, o público que se torna parte do pacto humorístico é aquele que percorre o noticiário sério do jornal ou da revista e torna-se capaz de entender as alusões, ironias e paródias de Verissimo e de seu humor fortemente conectado com os eventos noticiados e, por isso, compreensível apenas naquelas situações”, afirmou.
Com a era moderna, muitos dos textos passaram para o meio digital. Em muitos casos, porém, escritos que não eram do autor contavam com sua assinatura, tentando ganhar credibilidade. Ele se acostumou ao fato. “Fico sem graça de dizer que não é meu. Em outra oportunidade, uma senhora veio me dizer que não gostava tanto dos meus textos, exceto do Quase, que era maravilhoso. O que posso dizer? Melhor não decepcionar. E quando vou a escolas onde os alunos encenam um texto que, na verdade, não é meu?”, relatou ao Estadão em 2016.
RECEITA
Curiosamente, Verissimo se assumia como um “analfabeto em informática”, que se limitava ao uso de e-mails e do site de buscas Google. Para o restante, recorria aos filhos. Em texto publicado no Estadão em 2019 ele dizia: “Pertenço à geração perdida no tempo”. E citava a “farta literatura premonitória” sobre robôs indestrutíveis. “Que eu saiba, ninguém ainda imaginou um roteiro em que os inimigos não sejam grandes robôs blindados, mas os pequenos celulares.”
Em 2016, o escritor foi perguntado: qual a receita para suas crônicas serem populares e não popularescas? “Não tenho”, respondeu. Em seguida, atribuiu o mérito ao próprio gênero: “Acredito que, antes de mais nada, é preciso ter clareza na escrita. E, como a crônica normalmente não é um texto grande, torna-se acessível a qualquer público”. Ao longo da carreira, Verissimo ficou conhecido não apenas pelos “textos não tão grandes”, mas também por escrever estritamente o necessário, em pouquíssimas palavras, e ainda assim ter muito a dizer.
REPERCUSSÃO
“É um vazio insubstituível. O Verissimo não fala de si, não faz comentário da sua vida privada. Todas as suas crônicas giram em torno de personagens. Verissimo transformou a crônica num gênero da terceira pessoa. Deixa personagens, não deixa herdeiros, ele é inimitável”
Fabricio Carpinejar
Poeta
“Respeitado, admirado, como outros grandes escritores, porém mais de perto, com mais intimidade, graças ao humor delicioso”
Rodrigo Lacerda
Escritor e editor
“Érico Verissimo levou o Rio Grande do Sul ao mundo. Já Luis Fernando trouxe para dentro das famílias reflexões sobre a classe média e o choque de gerações. Suas personagens retratavam de forma brilhante o cotidiano e as relações entre pais e filhos, passado e presente”
Leandro Karnal
Historiador
“Ele era um cronista muito diferente dos outros, era um cara meio solto na crônica brasileira, muito singular. Dizia o essencial. Era uma pessoa capaz de ver humor nas coisas mais inesperadas e o humor dele nunca era forçado e se exprimia com o mínimo de meios”
Humberto Werneck
Escritor e cronista
“Era exemplo para todos com a vida de uma simplicidade que nos inspirava. Modesto, humilde, culto e divertido até durante o processo de recuperação
do AVC”
Marcelo Rubens Paiva
Escritor
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Por:Estadão Conteúdo