Escolhida como patrona da Feira do Livro de Porto Alegre (RS), a escritora Martha Medeiros se disse “órfã” após a morte de Luis Fernando Verissimo. A autora porto-alegrense esteve no velório do escritor, realizado no Salão Júlio de Castilhos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul neste sábado, 30.
Tal qual Verissimo, a autora seguiu a carreira de cronista e se tornou uma referência nesse tipo de texto. “É muito difícil a gente se sentir em um mundo onde o Luis Fernando não está mais. Ele que me fez me apaixonar por crônica, e acho que, de certa maneira, ele fez com que todo o Brasil se tornasse apaixonado por crônica.”
Para a escritora, o autor que a fez se apaixonar pelo texto curto das crônicas conseguiu ser o melhor em uma área na qual a literatura brasileira se confunde com o futebol. “A gente sabe que, no Brasil, chuta uma árvore e caem dez cronistas maravilhosos. Então, somos todos filhos de Luis Fernando Verissimo”, disse.
Jornalista e escritor dedicado à história, Eduardo Bueno, o Peninha, concorda com Martha Medeiros ao falar sobre a identidade ímpar de Verissimo na literatura brasileira. “Ele sempre ocupou um lugar na crônica que era único, mesmo o Brasil tendo alguns dos maiores cronistas do mundo.”
Luis Fernando Verissimo começou tarde a carreira de escritor, depois dos 30 anos. O mundo vivia a década de 1970, com o Brasil sob o regime de cassetetes e torturas da ditadura militar em seu auge. Nesse cenário, ele surge com um texto crítico, irônico e muito diferente daquele que era produzido pelo pai, o já consagrado Erico Verissimo.
Mas desde as primeiras crônicas, Luis Fernando inspirou os jovens que buscavam na escrita uma forma de se expressar naqueles tempos bicudos, para quem quisesse expressão livre, como o caso do escritor e doutor em literatura Luís Augusto Fischer. “Sou leitor dele desde a adolescência e, desde aquele momento, muita gente o imitava, e eu tentava escrever como ele, achar aquele giro no texto que fazia a gente achar graça”, relembrou.
A virada de chave
Peninha avalia que a chegada de Verissimo ao Estadão foi o grande ponto de virada na carreira do escritor, que deixou as páginas de Veja para escrever no tradicional jornal paulista. “Eu fiz parte da negociação que o levou da Veja para o Estadão em 1989, onde ele começou uma nova fase da carreira dele, de página inteira. Para mim, é muito honroso ter participado dessa ida dele para o Estado de S. Paulo e ter convivido com ele na casa dele e nas redações”, afirmou o escritor conhecido pelo estilo verborrágico, especialmente quando direcionado a torcedores do Internacional, mas que via Luis Fernando Verissimo com admiração.
“Todo o meu colégio na parte da literatura foi feito neste alicerce que é o Erico Verissimo. Aí vem o filho do Erico, na mesma profissão que a minha, o Jornalismo. Embora não fosse um repórter, um jornalista de ofício, publicava suas fabulosas crônicas em um jornal. Sempre nos pegamos mutuamente no pé com relação ao futebol. Eu sou gremista fanático, ele era colorado, eu sou mais eloquente e incisivo e ele mais silencioso. Mas quando eu estava no ataque, ele sempre dava um contra-ataque mortífero, mas o jogo terminava empatado”, contou.
Reclusão e legado
A timidez sempre foi um traço marcante da personalidade de Luis Fernando Verissimo. “Ele foi sempre muito educado, muito reservado, coisa que não existe mais hoje em dia. É uma pessoa que não precisou de rede social”, disse Martha Medeiros.
“É difícil se inspirar em Verissimo, porque ele é um gênio, mas a comunicabilidade, a ironia, o humor límpido faziam com que todo mundo se identificasse e se reconhecesse e refletisse”, afirmou, destacando ainda o legado de família para a literatura. “Até hoje lemos Erico Verissimo, então acho que Luis Fernando vai seguir esse mesmo caminho de ser um inspirador não só para a literatura gaúcha, como também para a brasileira.”
Fischer também aponta que tanto Erico quanto Luis Fernando conseguiram entender a complexidade de cada ser humano e das relações sociais, traduzindo-as em páginas de livros. “Ele tem esse discernimento que poucas pessoas têm de que o mundo acontece em qualquer lugar, inclusive na tua aldeia. Essa autonomia intelectual é uma coisa que ele herdou do pai e honrou o legado.”
Por:Estadão Conteúdo