Uma grande massa de ar seco e quente atingiu nesta semana as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Em São Paulo, as temperaturas devem chegar a 39º C nesta sexta-feira, 02. Já em Cuiabá, no Mato Grosso, e no Oeste e no Noroeste do Paraná, estima-se que os termômetros ultrapassem a marca dos 40ºC. Em Goianésia, hoje a máxima deve ficar em 37º C, mas a partir de amanhã a temperatura poderá chegar a 39º C, permanecendo nos próximos sete dias.

Segundo o professor e pesquisador do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Wilson Roseghini, por incrível que possa parecer, os registros das temperaturas mais elevadas do ano ocorrem justamente na primavera em grande parte do país. "Nós acabamos de sair do inverno, que é uma estação menos chuvosa, então ainda há a ocorrência de massas de ar seco, que costumam prevalecer sobretudo na região central do país."

"Apesar de o verão ser a estação do ano com maior incidência solar, também é um período mais úmido, no qual ocorre cobertura de nuvens e chuva com maior frequência, o que permite que as temperaturas não fiquem tão altas", completa.

Ainda por conta do inverno, durante a primavera, costuma haver também a ocorrências de massas polares. Especificamente este ano, no entanto, o professor afirma que algumas condições climáticas não estão favorecendo para que essas massas avancem sobre o Brasil. Um dos principais motivos seria a temperatura do Oceano Pacífico-Equatorial.

"Nós estamos em uma configuração de La Niña [resfriamento das águas da região do Oceano Pacífico-Equatorial]. Durante esse período, principalmente nas regiões Sul e Sudeste, costuma haver certo bloqueio de chuvas e frentes frias, o que favorece períodos maiores de estiagem e leva a temperaturas mais altas, como as que estamos presenciando."

O especialista ressalta ainda outro fator importante que estaria contribuindo para as altas temperaturas: as queimadas. De acordo com Roseghini, as florestas cumprem um papel muito importante na diminuição da temperatura.

Primeiramente, porque elas criam um sombreamento. E em segundo lugar, porque parte da água que as árvores retiram do solo é liberada na atmosfera, o que favorece a umidade do ar, a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas.

"O que estamos sentindo agora é um reflexo de um desmatamento que vem ocorrendo já há anos na Amazônia e na região do Pantanal. Esse tipo de problema associado aos cenários que estão sendo colocados de possível mudança climática no planeta podem fazer com que episódios como o dessa semana, de ondas de calor em áreas pouco comuns, passem a ser frequentes", alerta o professor.

Ainda em relação às queimadas, há um terceiro fator em jogo: a emissão de gás carbônico (CO2) e metano, ambos gases estufa que contribuem para a intensificação do aquecimento global. Segundo o especialista, tem-se observado um aumento da temperatura do planeta desde pelo menos 1880, quatro décadas após o início da Primeira Revolução Industrial.

Dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, apontam que, em um cenário otimista, no qual haja uma redução significativa das emissões de CO2 e ela permaneça em queda, estima-se que até 2100, a temperatura global poderia aumentar em até 2,5º C.  Atualmente, a temperatura média global é de 16º C, 1 grau acima do que seria o ideal.

Já em um cenário pessimista, em que gases advindos da queima de combustíveis fósseis continuem sendo emitidos no mesmo ritmo, estima-se que até 2100, a média da temperatura global aumente em até 4 º C. "Se hoje, com a média global de 16º C, já existem lugares do mundo que enfrentam ondas de calor com temperaturas que chegam a 45º C, 50º C, 55º C, imagine com uma temperatura global 4 graus acima."