O Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) oficializou, na quinta-feira (13), a cassação do título de Doutor Honoris Causa que havia sido entregue ao diplomata americano Lincoln Gordon em 1968. A decisão, tomada por unanimidade, marca um movimento de revisão histórica da instituição em relação ao período da ditadura militar brasileira.
A honraria, que historicamente gerou debates no meio acadêmico, foi alvo de um processo de análise sobre a trajetória do homenageado. O diplomata atuou como embaixador dos Estados Unidos no Brasil durante um período crítico da política nacional, entre os anos de 1961 e 1966, coincidindo com a ruptura democrática ocorrida no país.
Participação diplomática no golpe de 1964
Documentos históricos e registros da época apontam que Lincoln Gordon teve papel ativo no planejamento e na articulação do golpe de Estado de 1964. O movimento resultou na deposição do presidente João Goulart e no início de um regime militar que perdurou por duas décadas, encerrando-se apenas em 1985.
A atuação do embaixador é frequentemente citada por historiadores como um exemplo da influência estrangeira nos eventos que desestabilizaram o governo brasileiro. A revogação do título pela UFRJ busca alinhar o reconhecimento institucional aos valores democráticos e aos direitos humanos, distanciando a universidade de figuras ligadas à ruptura da ordem constitucional.
A Operação Brother Sam e o apoio militar
A relação de Gordon com o regime militar ganhou contornos mais claros após a abertura de arquivos do governo americano, especificamente do período da presidência de Lyndon B. Johnson. As evidências confirmam a existência da chamada Operação Brother Sam, um plano de intervenção militar direta.
A estratégia consistia no envio de uma força-tarefa naval para o litoral brasileiro, pronta para intervir caso o levante dos quartéis encontrasse resistência significativa. Embora a vitória rápida dos golpistas tenha tornado desnecessária a entrada das tropas em águas territoriais brasileiras, a operação demonstrou o nível de comprometimento dos Estados Unidos com a queda de João Goulart.
Revisão histórica e memória institucional
A medida adotada pela UFRJ não é um caso isolado no cenário das universidades públicas brasileiras. Instituições têm promovido revisões sobre homenagens concedidas durante o regime militar, buscando reparar a memória de vítimas e reafirmar o compromisso com a democracia.
O processo de revogação de títulos honoríficos é um instrumento utilizado pelas universidades para reavaliar o passado à luz de novas evidências documentais. Para mais detalhes sobre o contexto histórico da época, consulte o acervo da Biblioteca Nacional, que preserva registros fundamentais sobre a história política do Brasil.




